ligação do origem

Lincoln Secco
Professor do Departamento de História da USP.

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A história do livro e da leitura constitui um campo de estudo de muitas possibilidades analíticas. Numa zona intermediária que une a história social e a história econômica, ela tem inspirado estudos sobre livrarias, livreiros, editoras, bibliotecas [1]. É também um ramo fecundo para iluminar novas facetas da Revolução Francesa (por exemplo, os estudos de Robert Darnton), da história cultural (Roger Chartier), da História Antiga (Luciano Canfora e Guglielmo Cavallo). Desde o clássico de Daniel Mornet (As origens intelectuais da Revolução Francesa), foi possível ampliar muito o conhecimento das relações (nem sempre tão diretas) entre as luzes e a Revolução.

No que tange à cultura operária e ao socialismo, N. Richter na França é um exemplo dessa modalidade de abordagem. Na obra coletiva História do Marxismo, organizada por Eric Hobsbawm, encontram-se artigos acerca dessa mesma temática. No Brasil, salvo estudos pioneiros de Astrojildo Pereira e Edgard Carone, pouco ainda se fez sobre a história dos livros e editoras de esquerda ou operárias.

Também nesta área, Antonio Gramsci foi um pioneiro. Ele tem sido visto como objeto de uma história mais ampla que a história do livro, ou seja, a da recepção e difusão de suas idéias em várias partes do mundo. A Bibliografia feita por John Cammett arrola milhares de títulos sobre Gramsci, muitos deles tratando da fortuna crítica de seus livros. Todavia, Gramsci, ele mesmo, refletiu sobre os livros e a história deles. Ele percebeu a obra impressa como um meio fundamental na constituição da cultura política. Até porque o socialismo marxista nascia como um pensamento vinculado a uma prática política.

 

Condições políticas e editoriais na Itália

Os livros que Gramsci tinha no cárcere compunham um movimento editorial bastante específico na Europa Latina, especialmente na França. Os livros italianos eram de editoras que se tornariam tradicionais, como Mondadori e Bompiani. Assim como alguns livros franceses eram de editoras como Bernard Grasset e Gaston Gallimard (o editor francês de Luigi Pirandello). Mas os livros socialistas eram preferencialmente daquelas editoras que por mais ou menos tempo se dedicaram à literatura revolucionária, como a Marcel Rivière, Rieder e o caso extremo da Alfred Costes, que apoiou uma das mais importantes tentativas de edição das obras completas de Marx e Engels. Esta editora extinguiu-se nos anos 1950.

A hegemonia cultural francesa era incontrastável até a Segunda Guerra Mundial. Ao menos nos países a oeste do Elba, na Europa, e também nas penínsulas Itálica e Ibérica, bem como na América Latina. Por isso, destacar o movimento editorial francês corresponde a dar relevo à maior parte das edições socialistas. Especialmente porque, na época de Gramsci, assiste-se ao declínio do papel editorial do Partido Socialdemocrata Alemão (SPD) e à ascensão das editoras ligadas aos partidos comunistas e, por via deles, à União Soviética e à Internacional Comunista. A Correspondance internationale e várias outras publicações oficiais da Internacional Comunista eram em francês.

O próprio Gramsci dominava perfeitamente essa língua desde o tempo em que fora jornalista e crítico literário nos jornais Avanti e Il Grido del Popolo, nos anos 1910. E quando se tornou dirigente do semanário L’Ordine Nuovo fez traduções de textos franceses (como os do grupo Clartè, de Henri Barbusse). O russo (com que Gramsci travou contato por ter vivido na Rússia nos anos 1920 e que se transformaria, com o tempo, numa língua relativamente importante no movimento comunista internacional) só adquiriu a hegemonia de fato nos países da Europa Central e do Leste. E, mesmo assim, quando essa região tornou-se socialista, depois da Segunda Guerra. Quando Gramsci escreveu seus cadernos de tradução no cárcere, ele se preocupou em aprender o alemão e o inglês. Mas isso era mais devido às suas condições e ao seu talento de intelectual nato do que ao papel político preponderante dessas línguas. Certamente, o alemão continuava sendo a referência teórica, mas já não era política.

A difusão do marxismo, portanto, teve dois veículos principais: a língua e as editoras francesas. E teve um centro irradiador: Moscou. As razões para o declínio de Berlim e do SPD alemão eram fáceis de se observar: o impacto mundial da Revolução de Outubro criara um movimento igualmente mundial nela inspirado. Nada semelhante ocorrera antes. Embora os alemães tivessem o domínio da II Internacional, a estrutura desta era bem menos centralizada. Ao contrário, a Internacional Comunista era um órgão dirigente de fato (e de direito, para os comunistas) dos demais partidos comunistas, que eram suas seções nacionais.

Além disso, foi difícil qualquer colaboração política entre comunistas e socialistas nos primeiros anos. Ao menos até a mudança de linha política da Internacional Comunista nos anos 1930, quando a tática de frente única antifascista foi adotada. Os autores vinculados à II Internacional ficaram definitivamente em segundo plano. Turati, na Itália, McDonald, na Inglaterra, Kautsky e Bernstein, na Alemanha, eram substituídos por Lenin, Rosa Luxemburg, Trotski e, mais tarde, Stalin. Os autores socialdemocratas eram apenas citados de segunda mão, normalmente a partir das críticas a eles endereçadas pelos marxistas revolucionários, como Lenin, Trotski, Bukharin, Zinoviev, Rosa Luxemburg e Franz Mehring, ou eram apenas criticados por autores revolucionários menores ou situados nas margens da atividade política revolucionária, como Paul Matick, Karl Korsh ou Anton Pannekoek.

Pela “biblioteca gramsciana” do cárcere pode-se constatar esse fato: dois títulos de Bernstein e um só de Kautsky e de Turati. E se é verdade que só um título de Bukharin e nenhum de Lenin ou Zinoviev aparecem na lista organizada por Valentino Gerratana, no aparato crítico da edição dos Quaderni del carcere do Instituto Gramsci, os motivos são bem conhecidos! Afinal, Zinoviev e Bukharin, aquele mais do que este, tiveram uma circulação impressionante nas editoras e livrarias francesas. Ao menos até o início dos anos trinta. Também pelos poucos títulos de Stalin até o início dos anos 1930, pode-se observar que o culto da personalidade ainda não estava inteiramente instalado na União Soviética quando Gramsci foi preso, embora os boletins da oposição de esquerda formada por Trotski, Zinoviev e Kamenev já usassem, em 1927, a expressão “stalinismo”.

De toda maneira, a hegemonia editorial francesa era patente na própria literatura que Gramsci usava no cárcere. O maior número de títulos que ele citou nos Cadernos era, depois do italiano, obviamente, em francês. Isso porque, segundo Edgard Carone, em 1926 começa uma nova fase editorial na França. O Bureau d’Editions herda o catálogo da Librarie de l’Humanité e publica vários teóricos do marxismo. Ele se volta para as questões de organização. As Editions Sociales Internationales editam Marx e Lenin, principalmente. Mas também os romances proletários. Nas franjas dessa atividade editorial dominante na esquerda, aparecem a Librarie du Travail, que continua a publicar trabalhos sobre sindicatos, a Rieder, que traduz e edita os livros de Trotski, e a Félix Alcan, que dá vazão às teses universitárias sobre marxismo [2].

E o que se tem na Itália? As editoras, a exemplo da França, mantêm uma organização considerável, mas com um público leitor muito menor. Desde os anos 1870, a Associazione Tipografico-Libraria organiza muitos congressos e edita o Giornale della Libreria. Além disso editou o Catalogo Generale della Libreria Italiana dal 1847 al 1899. Um dicionário italiano do princípio do século XX nomeava entre as mais importantes editoras italianas: Nicolò Zanichelli (Bolonha), Antonio Vallardi (Milão), Loesscher (Turim), G. Laterza (Bari), Sansoni (Florença) [3]. A Mondadori, também de Milão, fora fundada em 1907. Em 1929, um de seus funcionários (Valentino Bompiani) fundou outra editora, a Bompiani, também em Milão [4]. Outras, como a editora dos Irmãos Bocca (Turim), interessaram a Gramsci tanto pelo conteúdo quanto pela ação editorial. Além de alguns livros de Robert Michels e de Achille Loria (autor ao qual se fará referência mais adiante), eles publicaram os livros de Max Nordau (que depois passaram “às mãos de editores como Madella e Barion e foram difundidos por vendedores ambulantes a preços baixíssimos e em grande quantidade”) [5].

Tudo isso revela a amplitude geográfica do movimento editorial. Mas, ainda assim, não se podiam esconder por trás dessa variedade as debilidades educacionais da população. Setenta e cinco por cento dos italianos eram analfabetos à época da unificação e só 2,4% dominavam o idioma oficial (toscano). Essa situação melhorou sensivelmente na era Giolitti, mas até a Segunda Guerra era frágil a situação social e educacional do país. No campo da produção editorial, essa fragilidade educacional se refletia. A produção editorial era de 6.822 títulos em 1906 e permaneceu quase a mesma (6.832) em 1909. Os editores argumentavam, entretanto, que somente 10% desses títulos se mantinham com venda constante por um ou dois anos [6].

O período em que Gramsci permaneceu preso assistiu a um aumento da média anual de publicações de livros. No intervalo 1922-1926 a média anual foi de 6.700 livros publicados. No período 1927-1931, a média subiu a 9.568. Depois, entre 1932-1936, a média foi de 12.656. Até a Guerra o volume de edições incrementou-se mais ainda. Estes dados excluem os livros escolares.

Se olharmos apenas para o ano de 1933, quando o número de livros editados chegou a 13.975, poderemos observar aquilo que foi uma tendência persistente daquele e dos outros anos. A maioria dos livros era de ciências morais, sociais e políticas (32,93%), depois literatura (22,91), artes (15,70%) e didáticos (11,96%). Apesar das oscilações, apenas os livros escolares sofreram uma queda acentuada até o fim da Segunda Guerra.

De fato, a Itália teve um aumento da produção editorial sem par no período 1928-1932, os anos mais produtivos da atividade carcerária de Gramsci. Enquanto a produção francesa estava estagnada em 72.044 (praticamente o mesmo número dos anos anteriores 1922-1927), a da Alemanha caía para 127.283 (contra 142.166 nos anos anteriores), a Itália saltava de 33.967 a 54.265, atrás apenas da Grã-Bretanha (que subira de 65.791 a 73.400) [7].

Gramsci chegou a pôr em dúvida dados como estes, lembrando que seria preciso avaliar o conteúdo e a natureza dessas publicações. A análise quantitativa precisava combinar-se à qualitativa.

Insiste-se muito no fato de que aumentou o número dos livros publicados. O Instituto Italiano do Livro comunica que a média anual da década 1908-1918 foi exatamente de 7.300. Os cálculos feitos para 1929 (os mais recentes) dão a cifra de 17.718 (livros e opúsculos; excluídos os da Cidade do Vaticano, de San Marino, das colônias e dos territórios de língua italiana que não fazem parte do Reino). Publicações polêmicas e, portanto, tendenciosas [8].

Gramsci afirma que seria necessário ver se as cifras eram calculadas como no passado e ver se mudou a “composição orgânica do complexo livreiro”. Ele cita a multiplicação de casas editoras católicas que editam, muitas vezes, livros sem nenhuma importância cultural. Por fim, seria preciso também inserir nas estatísticas as tiragens, e isto especialmente para os jornais e revistas:

Lê-se menos ou mais? E quem lê menos ou mais? Está se formando uma "classe média culta" mais numerosa que no passado, que lê mais, ao passo que as classes populares lêem muito menos; isto é revelado pela relação entre livros, revistas e jornais. Os jornais diminuíram de número e imprimem menos exemplares; lêem-se mais revistas e livros (isto é, existem mais leitores de revistas e livros). Comparar a Itália e outros países no que diz respeito aos modos de realizar a estatística sobre livros e na classificação por grupos do que se publica [9].

 

Primeiras leituras na prisão

Nos cerca de dez anos em que esteve no cárcere fascista (1926-1937), Antonio Gramsci escreveu os Cadernos do cárcere. Sob a rigorosa censura carcerária ele não podia obter muitas informações acerca dos fatos cotidianos, o que corrigia parcialmente com um número elevado de assinaturas de revistas que se lhe permitiam ler.

Desde suas primeiras missivas, ele se preocupou muito com o fornecimento de livros e periódicos. Na prisão de Ustica (9/12/26) [10], quando lia O homem que queria ser rei, de Kipling, pediu com urgência os dicionários e gramáticas para seus estudos de alemão, o que denota seu interesse em aprofundar-se na língua em que ainda estava boa parte dos escritos de Marx e Engels. Também os livros sobre o Risorgimento e a unidade nacional, tema que ele já vinha tratando pouco antes de ser preso, quando escrevia “Alguns temas da questão meridional”. Em outras cartas ele fez observações sutis acerca dos diferentes grupos regionais e culturais do Sul da Itália.

A primeira fonte para Gramsci foi a biblioteca da prisão. Essa circunstância limitou e, ao mesmo tempo, estimulou a reflexão teórica. Eis um caso em que o conteúdo, bem como a forma (leggere senza scrivere) determinou uma nova abordagem da literatura. Numa carta de 22 de abril de 1929, Gramsci escreve à mulher de um prisioneiro, através de Tatiana, que era preciso abandonar o modo de pensar "escolar" e não pôr na cabeça a idéia de se fazer estudos regulares e aprofundados, porque isso seria impossível até para aqueles que estavam em melhores condições do que ele. Exceto no caso do estudo das línguas modernas, para o qual bastaria uma gramática, que se poderia encontrar em qualquer banca de livros usados por preço barato (na expressão do próprio Gramsci), embora não se pudesse aprender a pronúncia.

Além disso, muitos encarcerados subestimavam a biblioteca carcerária. Certamente - diz Gramsci -, ela é desconexa, os livros são recolhidos ao acaso e abundam livros de devoção e romances de baixa condição. Ele leu os romances populares aos montes: Sue, Montépin, Ponson, etc. Em geral, lia-os em francês. Mas os romances populares em italiano eram editados pelo jornal Corriere della Sera. Publicava ao menos 15 por ano em tiragens altíssimas. Seguia-o a casa Sonzogno.

Mas essa restrição inicial aos livros da biblioteca da prisão não impediu que Gramsci, mesmo sem poder fazer apontamentos, chegasse a perguntas que se tornaram verdadeiros problemas de pesquisa: “Por que esta literatura é sempre a mais lida e a mais publicada? Que necessidades satisfaz? A que aspirações corresponde?”. Ao comentar a atividade editorial da casa Sonzogno ele disse:

Um exame da atividade da editora Sonzogno ao longo do tempo forneceria um quadro bastante aproximativo das variações ocorridas no gosto do público popular; a pesquisa é difícil, já que a Sonzogno não imprime o ano de publicação e freqüentemente não numera as reedições, mas um exame crítico dos catálogos daria algum resultado [11].

Como observa Joseph Buttigieg, “o cuidado e a atenção com os quais Gramsci registra rigorosamente cada detalhe bibliográfico são surpreendentes” [12].

Outro exemplo, indicado por Gramsci, é o do historiador Groethuysen, que, para estudar a burguesia nos dois séculos antes de 1789, leu toda uma literatura de devoção, prédicas, catecismos de diversas dioceses, e fez um “magnífico volume” (na expressão de Gramsci).

O principal intermediário de Gramsci nas compras de livros era Piero Sraffa, professor de economia em Cambridge e amigo de Maurice Dobb. Direta ou indiretamente eles sempre mantiveram discussões dessa natureza. Como Gramsci tinha um limite definido para escrever cartas, a correspondência era na maioria das vezes mediada por sua cunhada Tatiana Schucht. Piero Sraffa abrira uma conta corrente ilimitada para Gramsci na livraria milanesa Sperling & Kupfer. Em 21/12/26 Gramsci escreveu:

Querido amigo: recebi sua carta do dia 13; no entanto, ainda não recebi os livros que você menciona. Agradeço muito cordialmente o oferecimento que me fez; já escrevi à Livraria Sperling e fiz uma encomenda bastante volumosa com a certeza de não ter abusado, porque conheço toda a sua gentileza.

Em seguida (2/1/27) ele informou a Piero Sraffa ter recebido os livros:

Assim, tenho muito o que ler por algum tempo. Agradeço sua grande gentileza, mas não quero abusar. Asseguro, porém, que vou me dirigir a você sempre que tiver necessidade de algo.

Numa carta de 4 de abril de 1927 ele informa que possui alguns livros próprios e que toda semana recebe oito livros da biblioteca do cárcere:

Para que faça uma idéia, eis a lista desta semana, que, no entanto, é excepcional por causa da qualidade relativamente boa dos livros que apareceram: 1. Pietro Colletta, Storia del Reame di Napoli (ótimo); 2. V. Alfieri, Autobiografia; 3. Molière, Commedie scelte, traduzidas pelo Sr. Moretti (tradução ridícula); 4. Carducci, dois volumes das Obras completas (medíocres, entre os piores de Carducci); 5. Artur Lévy, Napoleone intimo (curioso, apologia de Napoleão como “homem moral”); 6. Gina Lombroso, Nell’America meridionale (muito medíocre); 7. Harnack, L’Essenza del cristianesimo; Virgilio Brocchi, Il destino in pugno, romance (de enlouquecer qualquer um); Salvador Gotta, La donna mia (ainda bem que a mulher é dele, porque é chatíssima). />

Gramsci informa uma lista insuspeita para seus censores. Revela-se ainda apenas um leitor. E sua leitura tem tanto o interesse de futuras pesquisas quanto de prazer estético ou intelectual. É que pouco tempo antes (março de 1927) ele havia feito uma requisição para escrever na sua cela. Foi indeferida. Em 20 de fevereiro de 1928, ele escreveu à sua irmã Teresina: “Posso ler, mas não posso estudar, porque não me permitiram ter  papel e caneta à disposição”. Uma nova requisição encaminhada pela sua família no ano seguinte obteve a permissão. Em 24 de setembro de 1928, ele voltou a se lamentar sobre a questão da leitura (agora do suprimento de revistas): “Você não me escreveu nada sobre as publicações periódicas que eu deveria receber da Livraria Sperling”. Tratava-se de sua mudança de endereço de Roma a Turi que precisava ser informada à livraria.

Diversas são as cartas onde ele mostra sua preocupação insistente com os livros. Ora está a falar a Tatiana (20/08/28) de um “pacote de livros”. Em seguida (3/11/28) reclama o envio de seus livros que estavam nas mãos de seu advogado, ou se refere aos livros da Slavia, editora que ele acompanhava atentamente. A Slavia, dirigida por A. Polledro, difundiu, entre 1926 e 1938, a literatura russa e eslava na Itália.

 

Fontes socialistas

Pelos autores mais citados nos Quaderni também se poderia fazer um levantamento da circulação editorial de alguns autores muito lidos na Itália. Por exemplo, Antonio Bresciani (1798-1862), um jesuíta que cultivou o romance histórico, tendo sido também o principal redator de Civiltà cattolica, publicação que continuou a existir e que Gramsci lia assiduamente. Não foi à toa que Gramsci o tenha citado muito. A obra de Bresciani teve uma repercussão européia fora do comum. Seu livro Hebreu de Verona alcançou 80 edições em poucos anos e foi traduzido ao francês, russo, alemão, inglês e castelhano. Outro autor muito citado foi Achille Loria. Sua obra principal, Analisi della proprietà capitalistica (1888) recebeu da Academia dei Lincei (Roma) o prêmio do rei. Ambos os autores eram usados por Gramsci para significar fenômenos essencialmente negativos.

Já Benedetto Croce, outro entre os mais citados, era uma presença obrigatória. Os primeiros decênios de vida intelectual italiana no Novecento foram assinalados pela “hegemonia [e Bobbio aqui faz alusão ao conceito gramsciano] de Benedetto Croce. O seu pensamento foi, conjuntamente, centro de irradiação e de convergência dos movimentos intelectuais do tempo” [13]. Todavia, não é verdade que Gramsci tenha se afastado da leitura dos clássicos do marxismo e do socialismo, mesmo sob as duras condições carcerárias.

O número de livros que Gramsci podia ter na cela era limitado. No quarto volume da edição crítica dos Cadernos do cárcere, preparada por Valentino Gerratana, podemos encontrar um vasto material referente aos livros que Gramsci possuía. Já no primeiro caderno carcerário encontramos uma lista de “Livros enviados de Turi a Carlo em 11 de  novembro de 1929”. Eram 63 títulos, entre eles os de pensadores italianos como Benedetto Croce e Luigi Einaudi. Mas o grosso dessa primeira lista era composto por literatura: de Pirandello a Tolstoi, de Kipling a Dostoievski, de Tchekov a Maupassant. Mas também a chamada literatura social (ou operária ou engajada), como o próprio Tolstoi, além de Panait Istrati, Boris Pilniaki e os best-sellers da época, como E. Remarque e Emil Ludwig. É preciso lembrar que a primeira lista expressa a cautela do prisioneiro, acostumando-se a novas regras de conduta que circunscreviam suas possibilidades de leitura. Mais adiante, no mesmo primeiro caderno, encontravam-se 4 livros, entre eles o do general Krasnov, Dall’aquila imperiale alla bandiera rossa (Florença, Ed. Salani), cuja terminologia seria usada amiúde por Gramsci.

Na lista seguinte, “Livros entregues a Tatiana em Turi, em 20 de fevereiro de 1930”, havia 8 títulos, com destaque para Croce e Prezzolini. Na lista seguinte, datada de 13 de março de 1930, 16 títulos, agora incluindo periódicos como o Almanacco letterario e autores como Marcel Proust e Plutarco. A lista de 20 de maio seguia o mesmo padrão. Só numa anotação à parte viam-se dois títulos socialistas de Leon Trotski: La révolution défigurée e Vers le capitalisme ou vers le socialisme?. Gramsci certamente não podia ter à mão os livros dos chefes do Estado soviético, como Lenin e Stalin. Mas Trotski já havia sido expulso da União Soviética e do Partido Comunista. Ele fora até mesmo publicado em italiano pela Editora Mondadori em 1930 (reedição nos anos 50, com 13 ilustrações) [14].

No caderno 2 há o esboço de um requerimento, datado de setembro de 1930 (“Petição a S. Exa., o chefe de Governo, expedida em setembro de 1930”). Esta carta é paradigmática porque revela a necessidade do prisioneiro (que tinha uma relação quase física com os livros) de saber quais as suas condições de leitura, o que ele podia ou não ler. Ele conta que em junho de 1928, no cárcere judiciário de Roma, confiscaram-lhe um opúsculo de versos de Mino Maccari, notório escritor fascista. Gramsci protestou ao Tribunal Especial e conseguiu saber que somente os livros de agitação política lhe eram proibidos:

Na Penitenciária de Turi de Bari, onde atualmente me encontro recluso, novamente me foi apreendido o pequeno livro de Maccari, junto com os seguintes: Giuseppe Prezzolini, Mi Pare... (uma coletânea de pequenos artigos de circunstância publicada em 1925 por Arturo Marpicati), Oscar Wilde, Il fantasma dei Canterville e altre due novelle umoristiche, H. Mann, Le sujet, Ed. Kra (romance da Alemanha guilhermina), Petronio Árbitro, Satyricon, J. London, Le memorie di un bevitore, Krasnov, Dall’aquila imperiale alla bandiera rossa (é um romance de Krasnov, general dos cossacos, emigrado czarista em Berlim, publicado pela Ed. Salani, de Florença); Maurice Muret, Le crépuscule des nations blanches, 1925. Trata-se de livros anódinos e insignificantes, é verdade, mas trata-se para mim, que ainda devo cumprir quinze anos de reclusão, de uma importante questão de princípio: saber com exatidão quais livros posso ler [15].

Gramsci aproveitava, no fim dessa carta, para pedir a concessão da leitura de Fülöp-Miller, Il volto del bolscevismo, e a Autobiografia de Leon Trotski. Nessa missiva há toda uma estratégia sutil de diálogo entre um prisioneiro e combatente e seu algoz. Que não é necessariamente uma pessoa, mas um sistema. E Gramsci cobrava das pessoas, representantes do sistema, uma coerência com as regras do próprio sistema. Há também uma ambigüidade proposital entre crítica e aceitação das regras, bem como uma estratégia de exploração das brechas, das válvulas de escape. Como se sabe, Antonio Gramsci nunca esboçou um gesto de luta ilegal enquanto esteve no cárcere. Condenou toda a agitação ou pressão pública que se pudesse fazer a seu favor. Uma vez preso, preferia lutar num horizonte reconhecível e dentro de perspectivas bastante realistas, que lhe preservassem ao menos os direitos que o próprio regime fascista declarava existirem. Comportamento que, se não destoava das diretivas que o partido impunha aos seus militantes presos, também retirava qualquer veleidade de heroísmo vulgar e artificial apregoado à época [16].

Por outro lado, ele jamais se rendeu ou declarou ter abandonado suas convicções políticas. Na carta, ele aproveita para simular a pouca importância dos livros pedidos, acrescenta que são politicamente neutros ou mesmo a favor do fascismo. Ora, se entre os livros pedidos há um ou mais fascistas notórios (como ele diz) e se os mesmos são insignificantes, é uma crítica bastante sutil e irônica ao próprio fascismo que se esboça através do diálogo sobre os livros. Por fim, ele volta a usar as “permissões” do sistema: se o governo italiano permitiu a publicação de dois livros sobre o bolchevismo, incluindo a autobiografia de Trostski, por que ele não os poderia ler?

Numa carta seguinte, a mesma “estratégia” é utilizada com mais ousadia. Gramsci gentilmente lembra ao seu interlocutor que um pedido similar ao que ora está a fazer fora recebido favoravelmente um ano antes. Uma vez mais ele explora as contradições dos dispositivos regulamentares com o próprio sistema, porque uma nova regra fixara uma lista de publicações periódicas que os presos poderiam ler, mas excluía (ou ignorava) um conjunto de outras revistas que Gramsci já assinava há 4 anos e meio por autorização do Tribunal Especial de Defesa do Estado. No mesmo requerimento, Gramsci solicita livros mais diretamente vinculados à questão socialista: Knickerbocker, O plano qüinqüenal soviético. Também Le procès du parti industriel de Moscou; Trotski, La révolution défigurée e Vers le socialisme ou vers le capitalisme?. Para evitar surpresa aos superiores, ele pede as obras completas de Marx e Engels com o reparo de que já tinha autorização do Tribunal Especial para lê-las e possuía em sua cela vários volumes. Por fim, para justificar o livro de Marx, Lettres à Kugelmann, com prefácio de N. Lenin, ele faz saberem que se trata de um prefácio de 1907.

O interesse de Gramsci pelo desenvolvimento da União Soviética nunca deixou de ser grande e persistente. Aparentemente, ela continuou sendo um paradigma bastante concreto para qualquer socialista marxista baseado na realidade. Seus longos comentários a respeito da doutrina de Nikolai Bukharin demonstram o quanto ele usou a linguagem da filosofia e das intrincadas discussões sobre materialismo histórico e ciência para refletir sobre a natureza política do regime soviético.

O mesmo se pode dizer do interesse pelo marxismo. Seus cadernos do cárcere mostram que ele fez exercícios de tradução de vários livros de Marx e Engels, como: Manifesto comunista, Trabalho assalariado e capital, Questão judaica, Sagrada Família e Contribuição para a crítica da economia política. Ora, se é verdade que Antonio Gramsci foi um marxista sui generis, muito ocupado com aquilo que ele entendia ser o princípio leninista (“análise concreta de uma situação concreta”), ele não descurou do conhecimento teórico dos clássicos do marxismo. Os títulos citados de Marx e Engels, somados, são trinta e dois nos Cadernos.

A idéia de que Gramsci teria abandonado o axioma básico do chamado materialismo histórico, a saber, a primazia em última instância da infra-estrutura ou base em relação às superestruturas, asseverando uma determinação da sociedade civil (em termos gramscianos) sobre a totalidade da vida social, foi propugnada por Norberto Bobbio [17]. Outros preferiram um Gramsci teórico apenas da política. Mas tanto suas inúmeras e dispersas notas sobre economia, quanto os livros que ele compulsou sobre o assunto confirmam o contrário. Ele não deixou passar ao largo suas inclinações muito ortodoxas neste assunto. Citou pelo menos seis diferentes versões e/ou resumos de O Capital de Karl Marx, além do original alemão.

Ora, Il Capitale foi editado na Itália em versões resumidas, ou mesmo o primeiro volume em tradução de segunda mão, desde 1879, quando Carlo Cafiero publicou seu resumo da obra de Marx. As duas editoras que publicaram Marx nos primeiros decênios do século XX foram Nerbini, de Florença, e Società Editrice Avanti, de Milão. Nerbini publicou a versão de Ettore Fabietti [18]. As Opere de Marx, Engels e Lassalle dirigidas por Ettore Ciccotti, foram publicadas primeiro por Remo Sandron e, depois, por Luigi Modigliani em Milão. Gramsci fez o seguinte comentário a respeito da atividade editorial de Remo Sandron:

Na Ed. Remo Sandron, muitos livros para esta seção. Duas direções. Sandron teve um momento de caráter “nacional”: publicou muitos livros que dizem respeito à cultura nacional e internacional (edições originais de obras de Sorel); e é editor “siciliano”, ou seja, publicou livros sobre questões sicilianas, especialmente ligadas aos acontecimentos de 1893-1894. Caráter positivista, de uma parte, e, de outra, sindicalista, das publicações de Sandron. Muitas edições esgotadíssimas, a serem buscadas nos sebos [19].

Vê-se que o conhecimento até mesmo da circulação e das vicissitudes editoriais da obra de Marx era posto em relevo por Gramsci. Ele se referiu mais de duzentas vezes a Marx nos seus cadernos e mais ou menos a metade disso a Engels. Referiu-se mais ainda a Croce, é certo, e bastante a Maquiavel e Hegel. Ainda assim, Gramsci tinha que eludir e iludir a censura carcerária não a respeito de nomes como Bresciani ou Missiroli, mas em relação a Marx e Engels, muitas vezes chamados de os corifeus ou fundadores da filosofia da práxis, a Stalin (Bessarione), a Trotski (Bronstein) e, especialmente, a Lenin, citado como Ilitch ou o discípulo dos fundadores da filosofia da práxis (o marxismo).

 

A formação da biblioteca

A publicação completa (ou quase) das Cartas do cárcere (incluindo correspondência ativa e passiva) permitiu agregar mais informações sobre a biblioteca gramsciana [20]. A biblioteca reunida após a Segunda Guerra teve três fontes principais: uma parte dos livros do cárcere tinha sido enviada a Moscou com os cadernos e retornara à Itália em março de 1950 sob custódia da Secretaria do PCI e,  no mês seguinte, do Instituto Gramsci; outra parte pertencia à família Schucht e foi doada ao partido; uma terceira parte estava em Ghilarza (Sardenha) na casa da família Gramsci. Uma pesquisa acurada de catálogos da Livraria Sperling & Kupfer seria importante para estabelecer “os tempos e as modalidades de construção de uma parte da biblioteca carcerária” [21], mas infelizmente a sede da livraria foi destruída durante a Segunda Guerra Mundial.

No cárcere, os livros foram constituídos em “biblioteca” através de uma luta tenaz contra a dispersão. As cartas de Gramsci o mostram desesperado para reunir os livros deixados nas várias prisões por onde ele passava em sacos de viagem e malas. Ora Tatiana escreve ao advogado por causa dos livros, ora escreve a Amadeo Bordiga com  quem Gramsci estivera preso em Ustica. A preocupação maior é com as gramáticas, pois ele fazia constantes exercícios de alemão (traduzindo Goethe, Marx, Engels, os irmãos Grimm...) e do inglês.

Ele também era um comprador nato. Parcela de suas missivas solicitava catálogos e publicações especializadas em livros. Ele teve em mãos, por exemplo, o Almanacco Mondadori, o Marzocco, a Rassegna settimanale della Stampa  Estera, a Fiera Letteraria, etc. Era assinante de revistas como Critica fascista. Quase todo o seu diálogo epistolar com Piero Sraffa (através de Tatiana) referia-se a livros. A mesma  Tatiana providenciou para seu cunhado um baú inglês, enorme, de tempos anteriores à Guerra Européia, “sólido”, “gracioso”. Era para Gramsci guardar os livros dele [22].

Gramsci se enfurece com seus gastos e com a precária segurança dos volumes. As constantes mudanças de prisão dispersam volumes que se perdem ou se deixam furtar:

Estes livros devem estar na casa da senhora Pina e gostaria de tê-los, especialmente o de Croce: imagine que já o comprei três vezes e sempre me roubaram. É demais. Custa 40 liras: gastei 120 liras e vou ter de gastar mais 40 (isto é: 160 liras) para ter um livro que me é indispensável [23].

Às vezes apela à memória para reunir seus livros: “Querida Tania: envio-lhe uma lista dos livros que devem estar em Roma, se a memória não me trai num ou noutro caso" [24]. A lista revela que, em 25 de março de 1929, Antonio Gramsci já busca fontes para alguns dos temas centrais dos seus Cadernos. Ele requisita quatro livros de  Croce. Ora, sabemos que ele escreverá seu “anti-Croce” na prisão – a expressão não é a melhor, pois se trata de uma crítica e de um diálogo fecundo com o maior pensador italiano de então.

Toda uma corrente liberal e socialista aparece representada por livros de Gobetti e Salvemini. O interesse pelo americanismo e o fordismo transparece em títulos de H. Ford, A. Siegfried e L. Romier. A famosa crítica a Bukharin já tem ali um início. Neste caso, todavia, a leitura é mais antiga. Ele leu o Tratado de materialismo histórico de Bukharin em Moscou (a primeira edição é de 1921) em 1923. No ano seguinte propôs ao partido a tradução para o italiano. Em 1925 usou extratos da obra nas suas aulas para a escola do partido. Criticou a obra especialmente no caderno do cárcere n. 11.

Numa carta de 26 de agosto de 1929 ele revela um pendor para a bibliofilia, ao mostrar um interesse em ter mais de uma edição de uma mesma obra mesmo nas condições carcerárias. A obra de R. Michels ele a possui na edição francesa anterior à guerra e na tradução italiana. É o que os franceses chamam amateur. Numa tradução aproximada: um amante dos livros.

 

Fortuna crítica

A discussão de Gramsci sobre livros e editoras encontra-se apenas nos Cadernos do cárcere. Isso traz um problema para o historiador das idéias: as edições desses textos implicam uma leitura e um direcionamento ideológico. Gramsci, pessoalmente, nunca quis editar um livro e é bastante plausível supor que jamais publicaria suas notas carcerárias no estado em que as deixou. Quando recebeu uma proposta, nos anos 20, para reunir seus artigos em livro, ele recusou sob o argumento de que seus textos eram apenas circunstanciais, posto que ele era sempre um intelectual em diálogo constante com os acontecimentos e os personagens de ocasião. Estampava seus artigos apenas em jornais.

No cárcere sua escritura sofreu uma alteração fundamental. Ele escrevia für ewig (para a eternidade) como dizia. Escreveu reflexões mais demoradas em vinte e nove cadernos. Trabalhava neles muitas vezes ao mesmo tempo, o que em alguns casos impede que saibamos a ordem cronológica dos textos. Reescrevia passagens inteiras, às vezes mudando uma ou outra palavra. Como editar uma obra assim? Este problema foi enfrentado por Palmiro Togliatti.

A história da edição dos Cadernos começou já em vida de Gramsci. No dia 7 de dezembro de 1933, após pedidos insistentes e uma campanha internacional a respeito de suas precárias condições de saúde, Antonio Gramsci foi finalmente transferido da prisão de Turi para uma clínica em Formia. A preocupação do detento era com seus livros e, especialmente, com seus cadernos manuscritos. Temia que a direção do cárcere lhe confiscasse tudo o que havia escrito ou lido. Preparou uma operação: enquanto ele mesmo distraía seus carcereiros, um jovem amigo de cela, Gustavo Trombetti, enfiava os cadernos embaixo das roupas, no fundo da mala.

Quando Antonio morreu em 27 de abril de 1937, ele deixou seus livros na clínica onde passou os últimos dias lancinantes da vida. Livros lidos e escritos. Livros do presente e do passado. E aqueles do futuro, de sua lavra, os cadernos que viriam a ser publicados. Piero Sraffa, seu amigo e correspondente, interpelou o centro exterior do Partido Comunista da Itália sobre o que fazer com os manuscritos gramscianos. Palmiro Togliatti (cujo pseudônimo era Ercoli) escreveu-lhe falando com veemência da herança política e literária de Antonio. Decidiu-se enviá-los a Giulia, esposa de Antonio, em Moscou (o que significava, em verdade, fazê-los chegar a Ercoli). Escrevendo a Tatiana, cunhada de Antonio, Piero a aconselhou a cuidar muito da segurança do transporte dos manuscritos. Seria preciso um transporte “seguro”. Quando Piero chegou à Itália, em junho, ele cuidou para que os cadernos do cárcere ficassem sob custódia no cofre de um banco (Banca commerciale). O presidente do banco era um antifascista amigo de Piero.

Os cadernos permaneceram no cofre por um ano [25]. Neste período Tatiana fez várias petições a fim de tomar posse também dos livros que Antonio possuía na prisão. Depois disso, providenciou um baú no qual os cadernos chegaram a Moscou. Lá, Vincenzo Bianco, representante italiano na Internacional Comunista, retirou pessoalmente os escritos e os entregou a Ercoli. Foi assim que os cadernos de Antonio Gramsci foram salvos.

Palmiro Togliatti publicou os Cadernos do cárcere entre 1948 e 1951. Ele reagrupou as notas de Gramsci por grandes temas. Assim, favoreceu uma leitura “fácil”, militante, mas também dirigida. Foram seis livros: Maquiavel, o Estado e a política moderna; Literatura e vida nacional; Passado e presente; O materialismo histórico e a filosofia de Benedetto Croce; O Risorgimento; Os intelectuais e a organização da cultura. Além disso, foram publicadas também as Cartas do cárcere. Argumentou-se que, embora essa seja ainda a mais importante edição dos textos gramscianos, ela está ligada à chamada via nacional para o socialismo (estratégia do Partido Comunista Italiano no pós-guerra). Agrupar as críticas de Gramsci a Croce, e não as críticas a Bukharin, revela uma escolha. No segundo caso, seria mostrar um Gramsci que questionava o materialismo soviético, por exemplo. Além disso, os Cadernos não foram escritos com unidades temáticas. Foram feitos de maneira fragmentada mas sob o prisma fundamental da história política.

Em 1975, Valentino Gerratana publicou os textos na sua “ordem espacial”, ou seja, como eles aparecem nos cadernos originais. Obra mais “difícil” de ler, que interessou bem mais aos especialistas e abriu uma longa discussão teórica, conceitual e, nos anos 80-90, também filológica. Gianni Francioni pretendeu restabelecer a “ordem cronológica” dos textos [26]. Ainda hoje se discute a pertinência de uma edição completa e rigorosa (do ponto de vista filológico) dos textos de Gramsci. O exemplo de suas análises sobre a circulação dos livros pode servir para iluminar a edição crítica de seus próprios textos. É de se duvidar que se consiga um dia editar os Cadernos como Gramsci os pensou enquanto escrevia. Mesmo com os avanços da crítica literária, este tópico permanece sendo um problema. Mas também assim se revela a riqueza desse pensador e homem de ação tão notável que resistiu a todas as tempestades que varreram muitos autores supostamente identificados com o marxismo.

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Notas

[1] Evidentemente, este artigo não busca fazer referências aos avanços teóricos na área específica da história do livro senão indiretamente. Trata-se de abordar a maneira como Gramsci tratou de temas semelhantes: mediação editorial, formas de pensamento, estratégias de leitura, etc.

[2] Carone, Edgard. O marxismo no Brasil (das origens a 1964). Rio de Janeiro: Dois Pontos, 1986, p. 40-2.

[3] Brunacci, A. Dizionario generale di cultura. Turim: Libreria Editrice, 1915, p. 498-9.

[4] Caro Bompiani. Lettere con l´editore. Milão: Bompiani, 1988, p. 3.

[5] Gramsci, A. Quaderni del carcere. Org. por Valentino Gerratana. Turim: Einaudi, 1977, p. 1.900. Doravante os Quaderni serão citados como QC.

[6] Pettinato, C. “Libri, editori ed autori”. La Lettura. Rivista mensile del Corriere della Sera, n. 10, out. 1910.

[7] Santoro, M. Storia del libro italiano. Milão: Editrice Bibliografica, 2000, p. 318-9.

[8] QC, p. 1.699-700.

[9] Id., ib. 

[10] Todas as cartas citadas a seguir provêm das seguintes fontes: QC, v. IV. Vide também: Gramsci, A. Lettere dal carcere. Turim: Einaudi, 1978; Id. Novas cartas de Gramsci e algumas de Piero Sraffa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.

[11] QC, p. 2.125.

[12] Buttigieg, J. “O método de Gramsci”. Educação em foco, v. 5, n. 2. Juiz de Fora: Ed. UFJF, 2001.

[13] Bobbio, N. Profilo ideologico del novecento. Milão: Garzanti, 1990, p. 90.

[14] Arnoldo Mondadori Editore. Catalogo generale giugno 1956. Milão: Mondadori, p.108.

[15] QC, p. 2.375.

[16] Cf. I communisti di fronte alla polizia e di fronte ai giudici (lettera di un vecchio rivoluzionario). Paris: Edizioni del PCI, jun. 1928, 15 p.

[17] Bobbio, N. O conceito de sociedade civil. Trad. Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Graal, 1982, p. 32.

[18] Ettore Fabietti é citado nos Quaderni (QC, 88) por um artigo sobre bibliotecas populares de Milão, onde mostra que os operários eram os melhores usuários: cuidavam dos livros e não os perdiam, diferentemente de outras categorias de leitores (empregados, estudantes, donas de casa).

[19] QC, p. 980.

[20] Gramsci, A. e Schucht, T. Lettere. 1926-1935. Org. por Aldo Natoli e Chiara Daniele. Turim: Einaudi, 1997.

[21] Id., ib., p. 22.

[22] Id., ib., p. 295.

[23] Id., ib., p. 317.

[24] Id., ib., p. 331.

[25] Spriano, P. Gramsci in carcere e il partito. Roma: L’Unità, 1988, p.104-5.

[26] Cf. Liguori, G. “El debate sobre Gramsci en el cambio de siglo”. In: Kanoussi, D. (Org). Gramsci en América. II Conferencia Internacional de Estudios Gramscianos. México, D.F.: Plaza y Valdes, 2000, p. 307.

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